Ando meio ausente aqui do [blog de photo]. O motivo: dedicação quase que total ao meu Trabalho de Conclusão de Curso! E foi pensando em unir o útil ao agradável que resolvi escrever um post trazendo um pouco do material teórico que eu estou produzindo nesse projeto. Dessa forma, atualizo o blog e não fico com a consciência pesada de estar perdendo o foco do TCC….
Em resumo, a minha pesquisa tem como objetivo principal investigar como os usos e apropriações da fotografia no ambiente digital repercutem na constituição da memória biográfica/identitária. Escrito assim até assusta, mas, basicamente, quero compreender as mudanças ocasionadas com a migração do tradicional álbum de fotos (impresso) para o ambiente digital.
Durante minha pesquisa bibliográfica, me deparei com a inspiradora obra “Álbum de família”, escrita pelo pesquisador colombiano Armando Silva. Esse livro está sendo uma bibliografia fundamental para refletir sobre esse processo de reconfiguração do álbum de fotos na atualidade. Por esse motivo, publico a seguir uma espécie de resenha que escrevi sobre ele. Boa leitura! Ah, e sugestões para o TCC são bem-vindas…
Com uma recente versão em português (Editora Senac São Paulo: Edições SESC SP, 2008), “Álbum de família” impõe-se como uma leitura essencial para os estudiosos das ciências sociais, da psicanálise ou mesmo da própria fotografia. Seja pelo mérito em apresentar os resultados de uma pesquisa rigorosa e complexa, seja pela universalidade do tema discutido, o colombiano Armando Silva – dedicado ao estudo do pensamento visual – traz reflexões sobre a intimidade familiar e, por extensão, da sociedade.
Dividido em oito partes – cinco capítulos teóricos e três anexos exclusivos para apresentar a metodologia utilizada, os histogramas e as fotografias da investigação -, o livro conta histórias a partir de fotografias e objetos – cartões, avisos, recortes de jornais e relíquias. Isso porque, a noção trabalhada é de que o álbum representa, literalmente, um pedaço de nossos corpos; nesse sentido, ele vai além das imagens e documentos e também inclui umbigos de recém nascidos, mechas de cabelo, marcas de pés etc.
Entre as condições necessárias para a existência de um álbum de família, existem três elementos que são fundamentais: um sujeito – a família; um objeto que torna possível mostrá-la visualmente – a fotografia; e uma maneira de arquivar essas imagens – o álbum de fotografias. Para o autor, o livro poderia intitular-se arquivos de fotos de família, mas isso não seria correto nem justo, uma vez que há um quarto aspecto que se desprende dos anteriores e os modifica como razão de ser: o álbum conta histórias.
Ao “contar histórias”, o álbum de fotos é construído a partir do ponto de vista das gerações que participam dele (avós, pais filhos), das regiões culturais, da idade ou do sexo dos narradores. No entendimento de Silva, quando a fotografia passa a figurar no álbum de família, talvez mais que em qualquer outra forma de exposição, esta se transforma em rito – processo que inicia ainda com a produção dos álbuns (seleção e disposição das fotos) e segue no momento de leitura e interpretação dessas imagens.
“Se o álbum é rito, é memória”. Na visão do autor, a memória deve ser compreendida na sua relação com o esquecimento. Em outras palavras, é possível dizer que memória e esquecimento agem de maneira dialética na medida em que as famílias elegem apenas alguns acontecimentos do seu cotidiano para preservar através de fotografias. Dessa forma, seleciona e enquadra – para usar a terminologia fotográfica – aquilo que será lembrada, assim como aquilo que, possivelmente, será esquecido.
Em especial sobre as especificidades dos arquivos fotográficos, o álbum de fotografias apresenta distinções dependendo de cada localidade, situação/contexto familiar, motivações pessoais, entre outros fatores. Além disso, o autor atenta para o protagonismo da mulher na preservação da memória familiar: em todas as regiões pesquisadas, os álbuns são – na imensa maioria – montados e contados pelas mulheres da casa. Paradoxalmente, os homens são os responsáveis por bater mais fotos (66%).
Ao lado de uma teoria crítica e bem estruturada, o livro também apresenta três anexos fundamentais para aqueles que buscam inspirações metodológicas. O primeiro apresenta as escolhas feitas pelo pesquisador desde as primeiras experimentações das técnicas a serem utilizadas até a conclusão da obra. No segundo, encontram-se os gráficos e histogramas, que servem para ilustrar as estatísticas da base de dados da pesquisa. Por fim, o autor disponibiliza as fotos citadas no estudo, dispostas em forma progressiva.
Na edição brasileira, a obra ganhou ainda um capítulo específico para problematizar “os imaginários de família no álbum digital”. Nele, o autor se dedica a refletir sobre as mudanças ocasionadas com a migração do tradicional álbum para o ambiente digital, onde as fotografias passam a fazer parte de um coletivo digital. Dessa forma, Armando Silva apresenta em seu “Álbum de família” um texto indispensável e, acima de tudo, atual para pensar sobre o “pensamento visual” na nossa sociedade.